Comentários do Fórum

COVID-19
In TEMAS INTERNACIONAIS
João Queiroz e Lima
11 de mai. de 2020
Concordo! A resposta num contexto de Covid não será tanto a do redesenho da cidade enquanto modelo mas a da cirurgia urbana para ajustar a cidade a este modo de confinamento ou distanciamento social. Passeios mais largos fazem com que menos pessoas se cruzem e ter menos carros equivale a ter mais espaço de passeio, por exemplo. Mas por outro lado o transporte individual é mais "confinado" que o transporte público pelo que poderá sair naturalmente reforçado. Gerir estas duas posturas poderá ser difícil. Uma coisa a que acharia graça é que o centro comercial voltasse a ser predominantemente no espaço de rua ao ar livre. Mas o comércio tradicional está menos organizado que o do centro comercial. O centro comercial investirá rapidamente em soluções arquitectónicas, relacionadas com medidas de comprimento, compartimentação de espaço ou definição de regras muito mais rapidamente do que o de rua. O centro comercial é gerido por uma entidade que sabe que se tem de adaptar ou perde competitividade. O seu contexto monofuncional e privado é menos abrangente que o do espaço público da cidade, pelo que o seu campo de actuação é mais reduzido e objectivo. Numa rua de cidade o espaço é colectivo e gerido pelo município que tem de gerir muito mais questões do que apenas a do comércio e que usa esse espaço público para muito mais funções que têm de se intersectar e coexistir, pelo que a sua optimização comercial ficará prejudicada. Há muitas ideias divertidas que me surgem também, que são mais de ficção científica humorística do que propriamente pragmáticas. Fica uma: Fazer faixas de circulação nos passeios pedonais em que haja sentidos viários, traços contínuos e descontínuos e até semáforos para que as pessoas não se intersectem. Na rua é ridículo, mas sabe-se lá? E no Colombo será que só se poderá vir a circular num só sentido? Será que isso não pode ser promovido por tapetes rolantes? Um grande carrocel comercial? Onde se passeia parado, de saco na mão e hamburguer na outra? Não deixa de dar que pensar nem que seja só um bocadinho.
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COVID-19
In TEMAS INTERNACIONAIS
João Queiroz e Lima
02 de mai. de 2020
O desenho da cidade é um acto contínuo. Produz-se desenho da cidade por aferição do que já está produzido. A cidade adapta-se. O que se pode tentar fazer quando se propõe cidade nova é analisar com os dados do contexto actual, se a cidade que se desenha pode vir a estar preparada para todas as circunstâncias previsíveis. Mas quando as circunstâncias mudam ela tem de ter capacidade de aferição. E as circunstâncias estão sempre a mudar pelo que a cidade boa é a que seja a mais flexível, mais adaptável, mais inteligente e mais capaz de potenciar a vida humana enquanto muda. Se isto acontece lentamente e progressivamente em períodos "normais", em períodos de crise, de guerras, de catástrofe, a adaptação da cidade tem de ser muito rápida e pode ser difícil enquadrar essa necessária adequação na estrutura do desenho da cidade. Aliás é preciso entender que o desenho da cidade não é feito de fora para dentro com a visão estática de quem produz um desenho ou uma escultura. É feito dinamicamente primeiro, porque a cidade tem um alcance territorial muito maior que aquilo que se pode desenhar. Porque a forma como se vive é que a tem de desenhar, não a mão abstrata de um arquitecto que desenha uma grelha bonita com proporções correctas. Porque a evolução tecnológica possibilita novos modos de experienciar a sociedade e logo a cidade adapta-se a isso. O que é necessário é que se adapte e, se possível melhore sempre. Lisboa, por exemplo, está a ser desenhada agora não pelo desenho das suas ruas, dos seus edifícios e das suas fachadas, mas pela mão do vírus que desenhou a ideia de que os aviões não levantam voo em Nova Iorque para aterrarem na Portela e os turistas não passeiam à beira Tejo. Desenhou a ideia de que ficamos à espera fora do supermercado enquanto dois clientes fazem as compras escondidos na máscara. De que os nossos filhos não vão à escola e ficam em casa a estudar com os pais. Que os pais deixam de ser pais para passarem a ser um híbrido desfuncional entre professores, trabalhadores e pais. Para isto a cidade não estava preparada. Não querendo exercer futurologia, o que pode estar em causa na sociedade pós Covid é uma de três coisas: 1 - O regresso à vida normal, pelo aparecimento das vacinas ou métodos de tratamento; 2 - O ressurgimento contínuo de uma onda pandémica; 3 - O surgimento de uma outra crise qualquer para a qual não estamos preparados (por exemplo um terramoto, a subida do nível das águas do mar pelo aquecimento global, outra doença qualquer, uma guerra...). Se no primeiro caso a adaptação das cidades será quase desnecessária, no segundo caso a alteração do modo de vida da cidade e até do próprio desenho da cidade em função das novas regras de convivência social, pode ter se adaptar aceleradamente. A cidade dificilmente mudará de forma, mas pormenores da cidade, das suas casas, do modo de habitar os espaços privados e públicos pode mudar para uma forma estranha mesmo muito diferente e que pode ter pouco paralelo na história da cidade. Quando isto aconteceu anteriormente deixou marcas evolutivas claras e, geralmente positivas, porque melhoraram a cidade contribuindo para auxiliar as necessidades da sociedade. E o terceiro caso? A primeira coisa a fazer é não desenhar a cidade de forma absolutista como se tudo tivesse de ser resolvido nesse desenho, mas sim de uma forma aberta e que possibilite ao máximo a evolução da cidade, a sua adaptação, a sua liberdade de expressão, o potenciar do modo de vida, a luz e a salubridade e, se tiver de ser, as novas e estranhas regras que vão reger a convivência social para sempre... A cidade deve ser desenhada em liberdade e democracia, não com controlo absoluto mas sim com responsabilidade e zelo. A segunda coisa a fazer é corrigir as patologias graves de que a cidade padece e que estão bem identificadas mas nunca em que nunca se actua. É necessário prevenir que crises futuras não tenham impactos maiores do que o necessário. A terceira coisa a fazer é meter a gente que sabe pensar a cidade a pensar a cidade. Que se faça o melhor que se possa fazer agora, porque essa será, em princípio a melhor Cidade e a que melhor se possa vir a adaptar depois. Este investimento no melhor possível, não está a ser feito. O que está a ser feito é o menor investimento possível. A cidade está a ser esmifrada, não está a ser pensada e o Covid só veio pôr isto em evidência.
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João Queiroz e Lima
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